DEPOIMENTO DE LEITURA E ESCRITA
Após a leitura dos depoimentos
sugeridos referentes às experiências com
leitura e escrita, vêm à minha mente
lembranças de infância, pouco frequentes , talvez, por falta de tempo, por
falta de estímulo: os primeiros livros de Monteiro Lobato, sugeridos por minha
mãe; e mesmo as primeiras obras que li, de Machado de Assis, na 5ª série,
consideradas por mim cansativas e quase
incompreensíveis (as quais fui realmente entender alguns anos depois , nas releituras). Cenas cotidianas, como fazer lição de casa na
cozinha (como mencionou Gilberto Gil),
recebendo as orientações de minha mãe e das dificuldades que tinha quando o
tema da redação era livre ( odiava isso e me identifiquei com o depoimento de Gabriel,
o pensador).
Só mais tarde constatei que o gosto pela leitura e pela escrita só se
dá a partir do exercício descompromissado, por divertimento e não por
obrigação.
Também com o tempo passei a compreender o significado da antropofagia literária, citada por Rubem Alves, onde consumo o trabalho do outro e me
aproprio do texto, das ideias e sensações a que ele me
remete. E aceito com naturalidade
a vontade que vem , esporadicamente, de redigir um pequeno texto, um desabafo que seja, sem pensar que isso não esteja ao meu alcance
porque não sou uma escritora, e me dar
ao direito de reescrevê-lo quantas vezes achar necessário, usando o cestinho de lixo como “amigo”,
conforme o depoimento de Moacyr Sciliar,
na intenção, é claro, de aprimorar o que estou escrevendo. Em suma, leitura e escrita necessitam de
exercício e incentivo, e a influência da família nessas experiências foi muito importante para mim. Minha mãe era alfabetizadora e meu pai tinha apenas a 4a. série, o que não o impedia de valorizar e incentivar meus estudos.
Como citou Newton Mesquita, ao
referir-se a uma imagem que vemos e gostamos muito e temos a sensação de que ela
esteve sempre dentro de nós, sinto que
certas obras que leio me transportam
para a estória, como se dela eu fizesse parte. Acho que da mesma maneira que é prazerosa
a leitura , deve ter sido prazerosa a
concepção da obra que, pois quem escreve tem a intenção de atingir o leitor de
uma forma especial. Eis a mágica da
leitura: nos dar a oportunidade de “ser”
o personagem, de “estar” no local descrito e de “sentir” o que o autor deseja
que sintamos.
Saber combinar as palavras é uma aptidão que muitos
não têm. Mas , ao menos, temos a
oportunidade de desfrutar dos prazeres ofertados pelos bons livros que nos
abrem novos horizontes, nos tornam mais críticos, mais sensíveis, fazendo com
que possamos descobrir nossos próprios pensamentos e nossa própria fala, tendo
como exemplo a fala e o pensamento que alguém expôs ao escrever.
LÚCIA LEME DE SOUZA
LÚCIA LEME DE SOUZA
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